16 de fev de 2008

Ode ao Gato


Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento ao rato vivo,
da noite até seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de um navio.
Seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passa
se pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço ao gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
o seu olho tem números de puro.

Pablo Neruda

7 Comentário, Perguntas e Respostas:

CLAUDIA LIMA disse...

...TEM UM PRÊMIO PRA VC NO MEU BLOG... BJUS.

CLAUDIA LIMA disse...

Agora quem pede o presente sou eu: Faz uma caixinha de link me pra mim?? Fiz uma, mas não gostei. Espero resposta... Bjus no coração e bom finalzinho de domingo.

Adriana disse...

Obrigada querida por lembrar do meu singelo blog, que bom que conseguiu fazer a meia , eu apanhei tanto pra fazer a primeira , agora faço quase uma por dia. Linda a Poesia ,não me surpreende vindo de uma libriana rss
Uma linda e produtiva semana.
Um abraço.

Sonia Vasconcelos disse...

Eh! Neruda é Neruda.
Ele tem um jeito só dele de lidar com as palavras e nossas emoções.
Tem boneca nova lá no blog, passa lá.
bjs

Meu nome é Rebeca disse...

Oi amiga!
obrigada Cintia pelo prêmio, fiquei mto feliz mesmo com o reconhecimento e adoro os comentários e visitas que faz ao meu blog. Teu cantinho é muito aconchegante e especial mesmo!!!
boa semna e muito rendimento nos "tricos"!!!
bjs Rebeca

Karen Burns disse...

Oi Cintia,
Não sei se você é 'gatófila' como muitas tricoteiras-arteiras espalhadas pelo mundo, mas pelo visto é. Lindo poema! Sou completamente apaixonada por essas criaturas felinas e fiquei emocionada com a mensagem. Obrigado por compartilhar conosco uma mensagem tão especial.
Bjs,
Grace

Nana disse...

Lindo este poema do Neruda !!!
Que coisa mais delicada estes trabalhos !!!
Se quiser dê uma passadinha no meu, acho que temos coisas em comum.... rs
Bjs
Nana
www.nanatricoegatos.blogspot.com